Um pulso democrático para o mundo
Lula transformou a 80ª Assembleia Geral da ONU em espaço de acusação e de apelo ético em discurso que versou sobre genocídio, fome e pobreza
Na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, o Brasil falou com coragem. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se escondeu atrás de eufemismos diplomáticos. Diante dos chefes de Estado, afirmou: “Nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza”. O plenário reagiu com aplausos. E Lula foi ainda além: “A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza”.
Ao nomear o genocídio, Lula rompeu com a linguagem calculada que tantas vezes protege a inércia internacional. Deu um passo que poucos líderes ousaram: transformar a tribuna da ONU em espaço de acusação e de apelo ético.
Essas frases não surgiram isoladas. Elas carregam a legitimidade de um país que, dias antes, havia experimentado em suas ruas o vigor democrático. Em 21 de setembro, manifestações em todas as capitais pressionaram a Câmara dos Deputados a recuar da chamada “PEC da Blindagem”. O próprio presidente da Casa admitiu a necessidade de “tirar pautas tóxicas da frente”. Foi uma vitória popular que mostrou ao mundo que a democracia brasileira respira – e respira com força.

Esse pulso das ruas atravessou o Atlântico e deu a Lula a autorização política para falar mais alto em Nova York. Não se tratou apenas de um gesto presidencial. Foi um eco coletivo. A democracia brasileira, pulsando nas praças, ofereceu oxigênio para que o Brasil, na ONU, erguesse a voz contra a barbárie.
Na Europa, esse mesmo pulso encontrou ressonância. Na Itália, trabalhadores pararam portos, trens e serviços. Greves nacionais tomaram mais de 70 cidades. Estivadores em Gênova e Livorno bloquearam navios carregados de armas. Em Ravenna, caminhões com explosivos foram barrados. Foram atos concretos de solidariedade com o povo palestino, que fizeram da rua um campo de resistência contra a engrenagem da guerra.
Enquanto isso, a Assembleia Geral da ONU aprovava resoluções históricas. Por 142 votos a 10, endossou uma declaração exigindo passos tangíveis rumo à solução de dois Estados. Por 145 votos a 5, garantiu que o presidente Mahmoud Abbas pudesse discursar por vídeo, após ter visto negado para entrar nos Estados Unidos. Maiorias esmagadoras. Mas, no Conselho de Segurança, o veto solitário dos EUA voltou a bloquear a exigência de cessar-fogo. O contraste é brutal: quando mais de 150 países defendem a vida, um único voto tem o poder de autorizar a morte.
Foi isso que Lula denunciou: “Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo”. Ao usar a palavra cumplicidade, ele apontou o dedo para aqueles que, com silêncio ou veto, alimentam a tragédia.
No Mediterrâneo, a prova da urgência. A Global Sumud Flotilla, a maior missão marítima civil já organizada para Gaza, com mais de cinquenta barcos e ativistas de 44 países, foi atacada. Drones sobrevoaram, explosões aconteceram próximas à frota, comunicações foram cortadas. Não houve feridos, mas a mensagem foi clara: a navegação humanitária está sob ameaça, diante de todos. Entre os embarcados, brasileiros que se arriscam para levar alimentos, remédios e dignidade a Gaza.
A contradição salta aos olhos: discursos que afirmam a necessidade de ajuda humanitária, votações que confirmam maiorias, mas barcos civis que seguem desprotegidos. Aqui está o hiato que precisa ser preenchido.
A solidariedade não pode parar no discurso. É urgente transformar palavras em prática. Isso significa criar um corredor humanitário sob bandeira branca no Mediterrâneo, com escoltas civis e multilateralidade. Não se trata de fazer guerra, mas de proteger a paz. Navios de defesa passiva, protocolos estritamente defensivos, monitoramento internacional em tempo real. Uma arquitetura que permita que a ajuda chegue com segurança, sem medo, sem sacrifício de ativistas.
O Brasil já mostrou que é possível inverter pautas quando as ruas se levantam. A ONU já mostrou que existem maiorias claras pelo fim do massacre. A Itália mostrou que trabalhadores podem parar a engrenagem da guerra. Falta agora que os Estados signatários da ONU ajam com coerência.
O pulso democrático do Brasil, que começou nas praças, atravessou o Atlântico e encontrou eco nas ruas italianas, precisa chegar ao Mediterrâneo. Precisa se transformar em embarcações civis de socorro, com bandeiras brancas erguidas não como sinal de rendição, mas como compromisso de proteção. Precisa garantir que nenhum flotilheiro, de nenhuma nação, seja sacrificado nesta empreitada.
Porque este pulso não vai recuar. É o pulso da humanidade, e o seu destino são as crianças e o povo de Gaza.
Flaviano Correia Cardoso é advogado humanista, ativista global em defesa dos direitos humanos, articulista do Le Monde Diplomatique e colaborador de veículos como JL Política C Negócios, Revista Movimento, Esquerda Online e outros portais independentes.

